“Teatro é que nem pizza. Você pede. Eu levo na sua casa, no seu trabalho. Onde você quiser.”
Conhecem algum actor que em vez de ficar à espera que os espectadores vão ao teatro, vai ao encontro deles ao local de trabalho, ao hospital, ou mesmo a bordo de uma viagem de avião? Esse actor é Raul de Orofino.
Conta Raul de Orofino que deve ser dos raros actores do planeta que já fez teatro a bordo de um avião. Esta sua experiência invulgar teve início nos anos 90, por culpa do plano de austeridade de Collor de Melo, ex-presidente brasileiro, que o deixou sem subsídio para montar uma peça no Rio de Janeiro. Levado pelo “instinto de sobrevivência”, decidiu que iria fazer teatro em qualquer lugar – nem que fosse na casa dos espectadores.
Em Outubro de 2004, frequentei uma formação de 3 dias da Quatro – Sistemas de Informação. Empresa esta que foi entretanto comprada pela multinacional IBS.
Bom, continuando. Nessa formação estava programado, para o fim da agenda de trabalhos, uma actuação da peça de teatro “Mário teu humor está no armário”. Confesso que nunca tinha ouvido falar da peça nem do seu autor e único actor, Raul de Orofino. E foi uma verdadeira surpresa!
Imaginem uma sala repleta de informáticos com os cérebros lavados em sistemas de integração e em serviços de conteúdo Web para PME’s. Falo por mim quando digo que, apesar de gostar muito da minha profissão, ao fim de 3 dias apetecia-me mesmo era umas cervejas bem frescas no fim da agenda de trabalhos. Mas meus amigos, como a vida está repleta de suspresas, a Quatro – SI reservou para os seus clientes um óptimo e descontraído momento teatral.
Ao entrarmos na sala do hotel reservada para o espectáculo, a primeira atitude de Raul de Orofino foi “obrigar” a assistência, isto é nós, a sentarmo-nos nas primeiras filas e a desorganizar o alinhamento em que as cadeiras estavam colocadas. Dizia ele “de lógica devem voçês estar fartos neste últimos 3 dias”. E realmente o actor brasileiro tinha uma certa razão.
Raul dá inicio à comédia “Mário teu humor está no armário”. A acção passa-se dentro de um consultório de psicologia. O(A) psicólogo(a) é a própria platéia. “Mário teu humor está no armário” foca as dificuldades que temos em lidar com mudanças e desafios.
A peça reúne quatro personagens em cena.
Ana Lúcia – Mulher que se encanta por Hugo, que é um anão, e enfrenta os preconceitos da sua família. Hugo é um grande executivo. Ela insiste no namoro, não por teimosia, mas porque está apaixonada de facto. “Foi o riso dele que me encantou!”, diz.
Hugo surpreende-a quando diz que está acostumado com situações embaraçosas. Ana relata como está feliz, que não sente falta de um corpo a envolvendo, pois está completamente envolvida. Ela diz que ele a realiza sexualmente muito mais do que muitos homens altos que ela já teve. E arremata: “A Branca de Neve não sabe o que perdeu!”
Carlos Alberto – Homem que foi demitido do emprego e não consegue encontrar trabalho, vai ficando em casa e aos poucos, assume as tarefas do lar. Torna-se um “dono de casa” enquanto sua esposa, Elisa, continua trabalhando como executiva. Ele relata as suas dificuldades em realizar tarefas da casa, em lidar com o ciúme de Elisa. Ela assume que não quer uma mulher-a-dias ou qualquer outra mulher dentro de casa com seu marido.
Ele enfrenta muitos desafios como ter que arrancar o dente da filha mais nova. Fica frustrado quando Elisa não aparece nas festas surpresa que ele preparou para o filho na escola. Ele começa, então, a perceber o que significa realizar tarefas que antes era Elisa quem fazia. Percebe o que é ocupar o lugar do outro. “Agora eu sei o que você fazia quando eu não estava aqui e por isso te amo mais ainda!”, diz ele.
Cleyton – É gay e reclama de Dudu, seu companheiro, que tem urinado na tampa da sanita nos últimos dias. Dudu é autoritário, passou a ocupar o cargo de gerente do seu banco e tem gritado ultimamente com Cleyton e com seus funcionários. Como ganha mais dinheiro do que Cleyton, diz que vai continuar urinando na tampa, sim, e que a porta da rua é serventia da casa. Cleyton fica arrasado, vai embora para a casa da mãe, e apenas lamenta deixar Bebel Eduarda, a gatinha que eles tiraram da rua e deram muito amor.
Uma noite, de madrugada, Dudu telefona deseparado. Diz que Bebel Eduarda teve uma inflamação rara no estômago, e que pode morrer. Cleyton corre para a clínica onde o veterinário Bumbay é muito gentil ao perceber o desepero dos dois, e oferece a suite da veterinária para passarem a noite ali. Dudu confessa que tem medo de perder Bebel Eduarda e tem medo daquilo que ele não conhece. Diz que, diante de coisas novas, ele fica tão apavorado que começa a gritar com as pessoas. Bebel Eduarda melhora, Dudu começa tornar-se mais flexivel e Cleyton reconhece que pode “reivindicar” suas questões de uma maneira mais doce e afectuosa.
Pai Mau Humorado – Ele relata que o seu filho de onze anos foi passar o fim de semana com ele. O filho diz: “Pai, que cara triste é essa? Faz como a Feiticeira: mexe com o nariz e ri!” O pai não acredita que o filho está falando de uma serie dos anos 70 que ele via quando era miúdo. O menino convida-o para verem um filme que ele gravou com episódios de A Feiticeira. Ambos vêem e o pai percebe que, depois que riu, começou a pensar melhor nos problemas dele e da empresa. Feliz, liga para sua actual namorada, e ela envia para ele uma reportagem que fala da importância do bom humor no tratamento de pacientes com SIDA e com cancro.
Ele diz que quando ri, o ser humano libera endorfinas que anestesiam as dores. Ele resolve, então, colecionar figuras engraçadas, procurar sites de humor na Internet, e antes de voltar para casa, alugar filmes de comédia. Resolve alimentar-se de BOM HUMOR!
No fim da peça, Raul de Orofino convidou-nos a reflectir nas histórias das quatro personagens e em qual delas revemos algum momento importante da nossa vida. Para terem uma ideia da interactividade entre Raul e a assistência naquele fim de tarde numa sala de hotel, a peça durou cerca de 30 minutos e a conversa entre nós o actor demorou quase 1 hora. A verdadeira peça estava no fim, estava naquela troca de experiências e vivências.

“Ouvir uma pessoa com os braços cruzados é diferente de ouvir uma pessoa segurando o queixo. Olho, posso não saber o que quer dizer, mas sinto. O que sinto vem para meu coração, que vai para o hemisfério direito do cérebro.“