Numa noite de Setembro de 1968, uma limusina negra percorre em grande velocidade a Marginal, rumo a Lisboa. O tráfego, intenso a essa hora, obriga o motorista a manobras contínuas de travagem e aceleração. Rapidamente o veículo entra na cidade.
No Cais do Sodré, o sinaleiro de serviço manda-o parar. O homem que segue ao lado do condutor ordena com impaciência: avance, avance. É Silva Pais, director da PIDE, a temível polícia política do regime.
No banco detrás do automóvel, três vultos de fatos e chapéus escuros permanecem silenciosos. O da direita é Salazar. Os outros são os médicos Eduardo Coelho e Vasconcellos Marques.
Aos pés do presidente do Conselho recorta-se uma mala de cabedal, manchada pelo tempo, com roupas e objectos de toilette. É a mesma que, 42 anos antes, ele trouxera quando chegara à capital.
À distância, outro carro segue-o. Nele vão, acabrunhados, Maria de Jesus, governanta de São Bento, e Paulo Rodrigues, secretário de Estado da Presidência.
A aragem do rio suaviza o calor da cidade. Sem que os doentes e o pessoal de turno o reconheçam, Salazar entra no Serviço de Traumatizados Crânio-Encefálicos do Hospital de São José.
Vai trôpego e curvado. Não responde às perguntas que os clínicos lhe fazem, lhe vêm fazendo, desde que abandonou o Forte de Danto António do Estoril, onde passava as férias de verão.
Quando fala, as palavras não encontram sentido. O pensamento quebra-se-lhe, o raciocínio desnivela-se-lhe.
Os exames são inconclusivos. Como serão os efectuados (electroencefalogramas) nos Capuchos. A sua carótida do lado esquerdo deixa de pulsar.
Quarto 68
O grupo voa para Benfica. Todo o sexto piso da clínica da Cruz Vermelha fora mobilizado, essa tarde, por Vasconcellos Marques, um dos seus clínicos de referência. O chefe do Governo deita-se, silencioso, no quarto número 68.
Figuras do regime chegarão nas horas seguintes: Américo Thomaz, Presidente da República, de Cascais; Bissaya Barreto, amigo de juventude, de Coimbra; Correia de Oliveira, ministro de confiança, da Suíça. É ordenada a prevenção dos quartéis e avisada a Censura.
Ao descer, pouco depois, para o bloco operatório, no quarto andar, Salazar encaminha-se para o fim. O fim do poder exercido ininterruptamente, totalitariamente, durante mais de quatro décadas; o fim, aos 81 anos, da vida.
A emoção apodera-se dos presentes. Nas redacções dos jornais a notícia cai como uma bomba.
A intervenção (esvaziamento de um hematoma craniano) faz-se, devido à debilidade do doente, com anestesia local.
Os resultados revelam-se satisfatórios. Boletins médicos chegam, na manhã seguinte, ao público.
Oito dias depois, porém, um grave acidente cerebral inutiliza-o para sempre.
Uma das páginas mais importantes da nossa história contemporânea é, ali, voltada.