Que eu me lembre nunca me dirigi a uma unidade de saúde, hospital ou centro de saúde, com temperatura alta (de trinta e nove para cima), que não tivesse sido atendido por um médico. E contam-se pelos dedos de uma mão o número de vezes que tal aconteceu.
Desde que a minha filha nasceu, já lá vão quase quatro anos, também já foi a unidades de saúde por duas vezes (uma ao centro de saúde e outra ao hospital) pela mesma razão: febre resultante de infecções provocadas por viroses frequentes (urinárias, respiratórias) em qualquer criança, qualquer pessoa.
Este é o ponto de partida para o que vou relatar de seguida. Mais adiante neste post – quem sabe, eventualmente, artigo na impressa local – colocarei uma questão, uma simples questão apenas.
Mas vamos por partes.
Ontem à tarde a minha mulher recebeu um telefonema do colégio que a nossa filha frequenta. Informaram-na que a Leonor estava com febre, com 38.8 graus de temperatura para ser exacto.
A minha mulher, já a caminho do colégio, telefonou para mim a informar-me da situação, sendo que entendi por bem entrar em contacto com a Linha de Saúde Açores, a linha de apoio à Gripe A que o Governo Regional dos Açores disponibilizou para o efeito. Em circunstâncias normais eu teria esperado mais algum tempo antes de entrar em contacto com a referida linha de apoio, na expectativa de aparecerem, ou não – preferencialmente não, como é óbvio – mais sintomas que levassem a temer uma infecção do tipo Gripe A, tais como dores de cabeça e em diversas zonas do corpo e diarreia. Mas acontece que a nossa filha tem manifestado alguns sintomas de gripe sazonal nos últimos dias, nomeadamente alguma tosse, espirros esporádicos e algum corrimento nasal. Nada que não seja típico de uma época de mudança de estação. Mas febre não, essa apareceu durante a tarde de ontem, de repente, e sem avisar. Ainda esta manhã a Leonor estava muito bem disposta e activa. Ora isso é que me preocupou.
Eu próprio tenho estado engripado nos últimos dias, contudo nunca manifestei alguns dos sinais mais preocupantes provocados pelo vírus H1N1, apesar de uma ligeira subida da temperatura – nos primeiros dias desta minha forte constipação encaminhei a minha mulher e a nossa filha para a casa dos meus sogros, uma medida preventiva que achei por bem pôr em prática, sem querer contudo ser alarmista.
Continuando…
Durante o contacto com a Linha Saúde Açores mantive um diálogo normal com o outro interlocutor (adj., s. m.), baseado em perguntas pela parte deste e das respectivas respostas da minha parte, precedido de uma explicação dos sintomas que a Leonor apresentava. O que eu pretendia era apenas uma informação: deveria ou não dirigir-me já com a minha filha para uma unidade de saúde? Devo dizer que fui bem atendido pela pessoa que estava do outro lado da linha, embora tivesse notado algum nervosismo e falta de confiança da parte dela – tive de repetir alguns pormenores acerca dos sintomas porque entretanto o registo da chamada parecia mais importante do que a informação que eu estava a fornecer. Tudo bem, compreendo. Lá me disseram que deveria levar a Leonor ao centro de saúde do concelho onde resido e que iriam avisar o pessoal de serviço da nossa chegada. Agradeci e desliguei.
Chegados ao centro de saúde tínhamos à nossa espera no exterior, junto à entrada das urgências, um segurança de uma empresa privada que presta serviço naquela unidade de saúde. O senhor foi delicado, simpático e orientou-nos para uma zona onde tivemos de proceder à desinfecção das mãos e colocação das máscaras protectoras. Daí dirigi-mo-nos directamente para um gabinete especialmente preparado para casos de despistagem de Gripe A, onde nos aguardava um enfermeiro. Este tratou de medir a temperatura à minha filha, sendo que de seguida iniciou aquilo a que vou designar de “busca interminável por um médico”. Acontece que durante todo o tempo em que estivemos naquela sala de despistagem o enfermeiro fez vários telefonemas internos (e penso que pelo menos um externo, se não estou em erro) a solicitar a intervenção de um médico, sem alarmismos nem urgências. Apenas solicitou a presença de um médico – nesta fase, passado pouco mais de 30 minutos desde que o colégio entrou em contacto com a minha mulher, a Leonor já estava a chegar aos 40 graus de temperatura.
O médico não aparecia, sendo que a justificação que recebi do enfermeiro, ao questionar-lhe, foi de que se tratava de uma mudança de turno. Entretanto nenhum médico, ou médica, aparecia para ver a minha filha.
O tempo passava e o enfermeiro, sozinho, demonstrou um profissionalismo que nos deixou, a mim e à minha mulher, relativamente descansados tendo em conta o local onde nos encontrávamos com a Leonor e a razão pela qual estávamos lá. O homem insistia nos telefonemas a solicitar a presença de um médico, ou de uma médica, ou do raio que parta quem, pelo que percebi, anda a fugir com o rabo à seringa nestas coisas da Gripe A. Entretanto este profissional de saúde encaminhou a nossa filha para o raio-x, recolheu amostras para análise de despistagem de infecção provocada pelo vírus H1N1, identificou um ou outro sintoma que poderiam indicar outro tipo de infecção responsável pela febre, enfim, fez tudo aquilo que faria se estivesse na companhia de um(a) médico(a) e ainda mais alguma coisa.
Eu não sei que deveres e que direitos terá um médico neste caso particular da Gripe A. Mais, eu não sei concretamente que deveres e que direitos tem um médico no exercício das suas funções, posso ter uma ideia na perspectiva de leigo, do senso comum, mas não passa disso. Mas pretendo informar-me, nem que seja pela simples razão de perceber se a minha filha foi bem ou mal atendida do ponto de vista do normal funcionamento de uma unidade de saúde, estando ou não a ameaça da Gripe A a pairar no ar.
Não sei se a Leonor deveria ter sido auscultada, se deveriam ter efectuado outro tipo de recolha para analisar, no sentido de despistar outras fontes de infecção – urinária quem sabe. Enfim, não sei se, por exemplo, deveria ter estado presente um médico, ou uma médica, apesar de saberem que tinham sido solicitados.
Já passa das duas da manhã. Há pouco, por volta da meia-noite e meia, recebi um telefonema informando que o resultado da análise da amostra recolhida à minha filha, para despistagem de infecção provocada pelo vírus H1N1, é negativo.
Parei um pouco para descomprimir o nervosismo miudinho que me acompanhou, sem alarmismos, nas últimas horas. Por muito serenos que possamos estar e, se possível, optimistas em momentos mais preocupantes, a verdade é que o cérebro tenta, por vezes, pregar-nos algumas partidas e nessas alturas o pensamento pode tornar-se numa má companhia.
Neste momento, e após reler este texto, questiono se valerá a pena publicá-lo aqui no blog ou noutro sítio qualquer. Mas se não o fizer não terei a oportunidade de colocar a questão a que me referi no início: se tive direito a ser assistido por um médico sempre que me dirigi a uma unidade de saúde, se a minha filha teve direito a ser assistida por um médico sempre que eu ou a mãe, ou ambos a levámos a uma unidade de saúde; porque razão desta vez foi diferente?