Na edição de hoje (PDF) do jornal Diário Insular vem em destaque, na primeira página, uma notícia que desencadeou alguma discussão em torno dela. Trata-se do facto da Direcção Regional da Educação (DRE) passar a monitorizar os conteúdos online das escolas da Região Autónoma dos Açores, bloqueando o acesso a determinados sites e domínios por parte dos alunos e dos professores. Esta notícia fez “mossa” ao ponto do editorial do jornal em questão dedicar uma palavras exclusivamente ao assunto.
Devido à monitorização dos conteúdos por parte da DRE, também já se falou em censura, numa rádio emitida a partir dos Açores. Vinha eu a caminho do trabalho, após o almoço, e ouvi a jornalista a comparar a atitude da DRE à censura que se pratica (também) nos acessos online na China – essa sim é real e já aqui escrevi sobre ela.
Pelo que li na notícia os conteúdos bloqueados estão relacionados com os seguintes temas: pornografia; actividade criminal; gambling (sorte no jogo, azar no amor); roupa interior; intolerância e ódio; download de toques e imagens para telemóveis; compras; violência e armas e, por último, URLs suspeitos de estarem relacionados a sites fraudulentos e a phishing.
Uniform Resource Locator (URL) é o sistema de endereçamento utilizado pela World Wide Web.
Curiosamente não li nada sobre instant messaging (ICQ, Windows Live Messenger, etc).
Posto isto chego à triste conclusão que eu sou, também, um ditador que impõe uma censura virtual aos utilizadores da empresa onde trabalho. Quase todos os temas que a DRE está a bloquear também eu os bloqueio, com excepção para “roupa interior”. E digo-vos mais: alimento com regularidade os URL set e Domain set dos conteúdos bloqueados, actualizando os respectivos ficheiros .xml, que contém todos os endereços que eu possa “apanhar” relacionados com o motivo de bloqueio. Eu e todos os administradores de sistemas que em consciência zelam pela segurança do parque informático do qual são responsáveis. Isto, meus amigos não é censura, é apenas segurança informática. E tenho a certeza que da parte dos técnicos que implementaram, por indicação da DRE, as políticas de acesso à Web, no caso referido pelo Diário Insular, a questão prende-se apenas nessa perspectiva.
Digo isto porque a jornalista que mencionei há pouco, comparou a “censura” da DRE à censura chinesa, durante uma entrevista efectuada ao coordenador técnico pela implementação das políticas de acesso em questão. O homem tentou fazer com que a senhora percebesse que os motivos que estão por trás da decisão da DRE deveriam ser colocados não a ele, mas a quem tem responsabilidades políticas nesta matéria. Tentou ainda esclarecer a jornalista numa perspectiva mais ou menos técnica¹, mas sem sucesso, visto que a mulher só via a censura à sua frente e ele não conseguiu transmitir de forma clara e objectiva do que se trata afinal o conceito de controlo de conteúdos em ambiente Web.
É claro que do ponto de vista dos alunos, dos professores e da opinião pública de uma forma geral, a segurança do parque informático, ou da Intranet (rede local) se preferirem, nada diz. E se disser, entra por um ouvido e sai pelo outro. Depois, se e quando houver azar e os sistemas ficarem infectados² ou serem alvo de invasão, com consequências que poderão ser desastrosas, aí sim vem mais uma notícia alarmante, referindo a falta de segurança nos computadores das escolas.
Bom, pormenores técnicos à parte, vamos ao que interessa às massas: a educação, ou não, dos nossos queridos alunos.
Antes de mais deixem-me dizer que é efectivamente um crime bloquear o acesso a um site pornográfico a um jovem de quinze, dezasseis ou dezassete anos de idade. No meu tempo tínhamos de pedir a um irmão, primo ou vizinho, maior de idade, que fosse à tabacaria comprar a «Gina» ou a «Tânia». Agora a miudagem tem tudo à borla e à distância de um clique (como tanto gostam de referir alguns políticos da nossa praça) para afinal de contas alguém chegar à conclusão que gajas nuas são uma ofensa à integridade moral dos nossos saudáveis jovens. Sinceramente.
Momentos de descontracção à parte, vamos, agora sim, ao que realmente interessa.
A Internet é mãe e madrasta em simultâneo. Tem tudo o que é bom e o que é mau, mas isso passa pela consciência e interpretação de cada um, desde que tenha capacidade para avaliar e reflectir sobre o que podemos aprender, ou não, na Internet e com a Internet.
Duvido que algum pai ou mãe de uma criança de oito, nove ou dez anos, acredite que o seu mais que tudo tenha algo de útil a aprender num site pornográfico, por exemplo. No referido artigo do Diário Insular, a determinado momento, colocou-se em questão a educação sexual, no sentido em que nesta disciplina um aluno tenderia a pesquisar, nos motores de busca, pela palavra “sexo” e ficar privado de consultar o resultado da pesquisa, devido precisamente à restrições de acesso à Internet. Ora temos então duas possibilidades de resolver este problema: ou voltamos à questão do “falso positivo”¹, na minha opinião a melhor opção; ou abre-se as portas da Internet, para o que der e vier, e dessa forma a criancinha terá respostas à sua questão francamente mais esclarecedoras do que ela poderia algum dia imaginar.
Se a minha filha, aos onze ou doze anos, tiver a possibilidade de aceder a sites pornográficos na escola, com base na justificação que se trata de educação sexual, então prefiro que essa educação seja proporcionada apenas em casa. É necessário que as crianças não confundam sexualidade com as expressões deprimentes da pornografia e da exploração do corpo humano. A sexualidade e a nudez podem ser belas e cativantes, já a pornografia tenho as minhas dúvidas.
Em relação aos restantes temas bloqueados, a minha opinião vai um pouco de encontro ao que penso em relação ao tema prostituição, separando, como é óbvio, as diferentes razões que se prendem com o motivo do bloqueio de cada um deles.
Imagino muita boa gente que critica a monitorização dos conteúdos online nas escolas, mas se tiverem a possibilidade de privar os seus filhotes, nos seus próprios lares, dos mesmos conteúdos, fá-lo-ão. Se calhar não o fazem porque não sabem e dá muito trabalho a aprender. Tudo bem, as novas tecnologias são muitas vezes um bicho de sete cabeças para as gerações menos jovens e, em consequência disso, haverá muitos pais e mães que optam por não monitorizar o que os filhotes mais novitos fazem na Web. Mas há sempre aquele primo, vizinho ou amigo, que dá uns toques no computador e poderá facilitar essa tarefa aos pais da criança, instalando e configurando uma solução de controlo de conteúdos. Eu próprio já o fiz, a pedido de pais que têm filhos pequenos em idade de começar a explorar a Internet.
Mas como a Internet não serve apenas para os filhos, sugiro aos pais, novos e velhos, e a quem muitas vezes critica de forma hipócrita a monitorização da navegação online das crianças, as seguintes visitas: InternetSegura.pt; InternetSegura.org; EU Kids Online e SeguraNET.
Por último gostaria apenas de referir que penso que seria mais viável, em termos práticos e no sentido de um acompanhamento mais próximo aos professores, que a gestão das políticas de acesso à Internet fosse feita localmente, isto é, em cada escola. A DRE poderia ter uma palavra a dizer neste sentido, concordo, mas o que a experiência me diz, enquanto administrador de sistemas, é que na prática este tipo de tarefa deve ser feito por quem tem um contacto directo e diário com a realidade da rede informática e com as necessidades efectivas dos utilizadores dessa rede.
¹ Muitas vezes ao bloquear determinado acesso, bloqueia-se igualmente outro que à partida não seria necessário. Para isso há que editar a regra de bloqueio, permitindo dessa forma o acesso a determinado site que se encontra fora do âmbito da política de acessos. Em terminologia informática estes casos são designados de “falsos positivos”.
² Poderá o leitor colocar a questão da segurança noutro termo: e as PENs (flash drives) e outros suportes digitais? Não são uma ameaça também à propagação de malware nos computadores das escolas? São, com certeza que são. Mas estamos a falar da World Wide Web e maior fonte de porcaria infecciosa digital não há.